Resposta ao texto da Sra. Jornalista Eliane Brum, para a Época


Há uma certa discussão equivocada a respeito do uso da palavra doutor em frente aos nomes de médicos e advogados. Na internet, vez por outra aparecem críticas ferrenhas aos médicos por causa desse "benefício" que a clásse médica possui. Antes de ir mais a fundo nessa discussão, quero deixar claro que a minha intenção não é a de defender o uso desse tratamento, o que é preciso é que se esclareça algumas coisas a respeito disso e, primeiro de tudo, o fato de que a classe médica em geral não exige que as pessoas a tratem por esse termo. Não é obrigatório. Mas e por que as pessoas chamam os médicos de doutores?


Tudo começou em 11 de Agosto de 1827 em um decreto assinado por D. Pedro I, ao instituir os primeiros Cursos de Ciências Jurídicas e Sociais. Nessa Lei, consta no artigo 9 o seguinte:




Art. 9.º - Os que frequentarem os cinco anos de qualquer dos Cursos, com aprovação, conseguirão o grau de Bachareis formados. Haverá tambem o grau de Doutor, que será conferido àqueles que se habilitarem com os requisitos que se especificarem nos Estatutos, que devem formar-se, e só os que o obtiverem poderão ser escolhidos para Lentes. - Lei de 11 de Agosto de 1827


Dessa forma, os bacharéis formados naquela época, em qualquer um dos cursos - inclusive o Bacharelado em Medicina - poderiam ser tratados por doutores porque havia uma lei que lhes assegurava tal direito. Em 1889, veio a Proclamação da República e o fim do Império; as leis começaram a mudar. Hoje, 185 anos depois, isso não é mais realidade. Porém, o uso ao longo de quase dois séculos consolidou o doutor como um costume, principalmente para os médicos, e adquiriu um significado paralelo ao outro uso mais comum dessa palavra, que é para designar aqueles que têm doutorado. São homônimos, e não sinônimos. Homônimos são palavras que são escritas de forma igual, mas têm significados diferentes - assim como banco/assento e banco/agência bancária. Dessa forma, os dicionários classificam cada significado diferente para doutor em um tópico específico, veja abaixo.


Um dos mais reconhecidos dicionários da língua portuguesa, o Dicionário Aulete, diz:




Doutor:


1. Aquele que se formou em medicina; MÉDICO

2. Aquele que completou o doutorado.

3. Aquele que se formou numa universidade.

4. Fig. Homem muito douto, culto, erudito.

5. Joc. Indivíduo que tem a facilidade e o costume de praticar certos atos, ter certo procedimento (ger. negativos): Ele é doutor em colar na prova sem que ninguém perceba.

6. Título conferido a magistrado judiciário.

7. Pop. Forma de tratamento que denota respeito a pessoa supostamente superior na hierarquia social. - Leia mais...

Para confrontarmos com uma segunda fonte, segue também um excerto do Dicionário Michaelis da Língua Portuguesa:


Doutor:

1. Aquele que recebeu supremo grau em uma faculdade universitária.

2. por ext Bacharel, advogado.

3. pop Médico.

4. Aquele que ensina.

5. iron. Homem que tem presunção de sábio. - Leia mais...

O uso dessa palavra consolidou-se ao longo do tempo e continua presente como uma forma de tratamento para com os médicos. Acabou perdendo o significando de exaltar a profissão, deixando de representar um título e transformando-se em uma forma popular de designar-se ao médico, da mesma  forma que isso existe em outras línguas, como no inglês: doctorque é usado como sinônimo para physician (médico). O que está errada é a maneira distorcida e exagerada com que isso tem sido tratado por algumas pessoas, denegrindo a imagem da Medicina como prática, inclusive. Segue um trecho do texto da jornalista Eliane Brum, da Época:


No caso dos médicos, a atualidade e a persistência do título de “doutor” precisam ser compreendidas no contexto de uma sociedade patologizada, na qual as pessoas se definem em grande parte por seu diagnóstico ou por suas patologias. Hoje, são os médicos que dizem o que cada um de nós é: depressivo, hiperativo, bipolar, obeso, anoréxico, bulímico, cardíaco, impotente, etc. Do mesmo modo, numa época histórica em que juventude e potência se tornaram valores – e é o corpo que expressa ambas – faz todo sentido que o poder médico seja enorme. É o médico, como manipulador das drogas legais e das intervenções cirúrgicas, que supostamente pode ampliar tanto potência quanto juventude. E, de novo supostamente, deter o controle sobre a longevidade e a morte. A ponto de alguns profissionais terem começado a defender que a velhice é uma “doença” que poderá ser eliminada com o avanço tecnológico. - Leia o texto na íntegra.

É triste que uma jornalista renomada e influente tenha uma visão tão distorcida a respeito da nossa (ou a minha futura) profissão. Médicos não são os "doutores" a que a jornalista se refere no texto, que sentam-se em suas mesas e reduzem as pessoas por "depressivas, hiperativas, obesas, cardíacas". O que fazemos é estudar a fundo biologia humana para que encontremos os problemas que diminuem a qualidade de vida das pessoas e possamos ajudá-las a serem mais felizes e a terem uma vida melhor. Nós não manipulamos drogas mágicas que façam nada além do que tratar doenças e detemos o controle legal sobre elas porque a sociedade em geral não se beneficiaria do acesso livre às drogas, seja pela real necessidade de orientar seu uso, para que enventuais complicações e efeitos colaterais sejam tratados, para prevenir o surgimento de bactérias resistentes - no caso dos antibióticos - ou evitar que pessoas viciem-se em medicamentos psicotrópicos, por exemplo. Além disso, os médicos estudam uma disciplina chamada gerontologia, que é o estudo da velhice como uma fase de vida, e é para ajudar as pessoas a entenderem esse processo difícil da existência e dá-las suporte para que não sofram em demasia. A medicina não trata a velhice, trata de pessoas idosas que estejam doentes.


E quanto ao doutor, ao senhor, ao seja-lá-o-que-for, eu - bem como as outras pessoas - tenho o direito de expressar na minha linguagem a minha visão, o meu respeito e a minha relação com as pessoas. Ninguém é obrigado a usar o doutor, usa quem quiser. Afinal, não há algo que proíba também o seu uso. Pode-se chamar qualquer pessoa de doutor, não é crime. No caso dos médicos, pode-se chamá-los como quiser, nosso Código de Ética - o principal guia de conduta e princípios médicos - não menciona essa exigência e nem esse "benefício". O fato é que uma jornalista da altura da Sra. Eliane Brum não deveria falar a respeito de uma profissão da qual parece não conhecer os preceitos básicos que a guiam e, sobretudo, distorcer a prática médica em um veículo de comunicação dessa maneira para - pura e simplesmente - implicar com uma simples palavra de seis letras, enquanto há assuntos muito mais sérios a se tratar em relação às políticas de sáude neste país ou sobre a desigualdade social.

fonte

http://posgraduando.com/blog/doutor-e-quem-fez-doutorado